
Ser jovem é difícil. Só os velhos pensam que é fácil. É raro o jovem, prematuramente envelhecido, que julga que é bom.
No latim, adulto é o particípio passado de adolescer. Um adulto é apenas quem deixou de ser um adolescente. No meu tempo podia-se ser adulto aos 18 anos - sair de casa dos pais para estudar ou trabalhar; ser pobre mas financeiramente independente dos pais; ter quatro paredes só nossas, onde só a polícia pode entrar contra a nossa vontade.
Hoje em dia, tudo foi adiado. Durante os primeiros anos, ocupa-se essa folga a tirar um curso superior. Mas, quando os cursos acabam, acabam para toda a turma e o engarrafamento que impediu a passagem à idade adulta reaparece na forma de desemprego ou de falta de emprego satisfatório e seguro.
Os jovens vão ficando em casa dos pais - ou voltando sempre que as coisas correm mal - e desesperam. Ou não? Pelo menos é essa a versão oficial.
Se calhar, não é bem assim. Muitos jovens adultos escolhem continuar a viver com os pais, apesar de poderem viver sozinhos, se quisessem. Em Portugal, pelo menos, os pais gostam que os filhos não desapareçam mal cheguem aos 18 anos.
Criou-se assim uma idade nova que não é apenas intercalar. O jovem adulto de 18, 25 ou até 30 anos vive com os pais - mas como adulto, com acordo de ambas as partes. Faz a vida que quer, desde que tenha o cuidado de não causar preocupações. Convive e conversa com os pais de adulto para adulto.
Conhecem-se como adultos. Se o filho ou a filha trabalharem, têm a vantagem de ficar com algum dinheiro para gastar. Gastam-no na idade certa, enquanto são novos, ao contrário dos jovens adultos que vivem em casa própria, sufocados por rendas e contas.
A idade em que se é adulto dependeu sempre da expectativa de vida. A situação económica empurra e obriga mas não é a explicação deste adiamento. É o comprimento da vida que permite que se tirem entre cinco e dez anos para se ser adulto - e reconhecido como adulto - com grande parte dos prazeres de ser adulto e só uma pequena parte das chatices. Estas chatices são custos de dinheiro e de tempo.
Ficando em casa dos pais, adiam-se essas chatices (que nunca são boas) e tem-se o luxo de morar e namorar, de sair e voltar, até ao dia em que já não apetece mais - para ir viver sozinho ou com outra pessoa.
Pais e filhos conhecem-se e dão-se melhor por isso. Sobretudo, quando o filho poderia sair de casa, se quisesse, mas escolhe ficar. Até aos 18 anos, a tudo é obrigado. Os pais é que mandam. É preciso esconder e mentir. Mas quando se está com eles de livre escolha, aprende-se a negociar, a compreender a posição deles - e começa-se a viver, mesmo levemente, como um adulto. O que envelhece as pessoas, para além da passagem do tempo, são as chatices de se ser adulto - fazer trabalhos de que não se gosta, aturando pessoas de que também não; pagar contas, não ter tempo livre, ter quem dependa de nós. A estas chatices chamam as pessoas que as sofrem, para chatear os jovens que vão conseguindo livrar-se delas, "responsabilidades".
Os jovens e os velhos sempre se queixaram. Os jovens queixam-se que têm menos oportunidades do que os velhos, quando eram jovens. Os velhos queixam-se que não, que tinham mais obrigações e menos liberdades.
No fundo, os jovens queixam-se de já não terem idade para ser jovens e os velhos queixam-se de nunca terem tido tempo para gozar a juventude. Tudo isto é eterno e ocupa muito tempo.
Uma coisa é certa: a opinião que se tenha a este respeito depende mais da pessoa e do dinheiro de que dispõe do que da idade que tem. Ou mesmo da idade em que vive.
Miguel Esteves Cardoso in Pública
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